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20 fevereiro 2010

transcendências

Já sabia que estava ferrada quando olhou pela janela em movimento e recebeu a mensagem. Porque como sempre, imergiu naquilo. E eram tantas, tantas flores, e era o movimento das plantas, o crescer das trepadeiras, e tudo aquilo que amava e que a toma como se a afogasse. Ela sabia que estava ferrada, enquanto o micro ônibus corria pelas ruas e ela transbordava aquela beleza indefinível, a luz invernal do fim da tarde e a diferença entre o selvagem e o urbano, a beleza urbana difícil de se ver as vezes, escondida no asfalto.

No metrô, era difícil se focar, porque a mente fugia. Ela lutava contra si mesma tentando ser focada, concentrada. Então, desceu do metrô - e a avenida era a coisa mais bonita que existe no mundo.

Como explicar os faróis e o ruído, o lusco fusco, aquele momento separado do tempo comum, a beleza fluida e inebriante da cidade... e ela tentou evitar, mas não pode, e se viu tomada por aquilo, tomada pela beleza da cidade. E não importava por onde tentasse se orientar, seus passos iam e voltavam mesmo que ela continuasse em frente, e ela era quase invisível.

E naquela hora ela soube que não adiantava lutar. Parou na banca de jornal. Comprou cigarros. Acendeu um. E foi andando devagar, deliciada e agradecida por poder enxergar tudo aquilo, deixando para lá o desassossego do atraso.


(22/julho/2009)

17 junho 2009

culpa dos sapateiros das palavras

Primeiro foram sapatinhos de verniz. Amava o brilho deles, a lembrança de bonecas e laços de fita. Achou sempre que era um injustiça que não se fabricassem sapatos de verniz para adultos. Quando viu pela primeira vez um par de sapatos de adulto com aquela aparência de sapatinhos de boneca, comprou com avidez. Ela e a amiga, sentadas nos cacos de cerâmica vermelha do piso da faculdade, comparando os sapatos de boneca que elas mesmas vestiam, como se tivessem, súbito, cinco anos de novo.

Olhando para as fitas que prendiam os sapatos podia pensar que sua vida era medida por eles. O tempo dos sapatos de verniz, o tempo dos tênis de lona. O tempo dos coturnos e dos saltos Luis XV. O tempo que se dobrava em sapatilhas, sandálias rasteiras de couro vindas do nordeste. Sua vida poderia ser contada por seus pés, como se estes vivessem a parte do resto do corpo, ignorando todo o resto.

Tempo inclusive de chegar em casa descalça, pisando de leve nas meias atoalhadas para não fazer barulho.

Não são os pés o foco, mas o que os recobre. Como revestir esses pés e como mostrar para quem olha quem se é? Um sapato diz mais do que todo o resto da roupa.

Tempo de sapatinhos tricotados. Pantufas coloridas. Centenas de All Stars se acumulando - maldição de sapato que dura pouco e se gosta tanto. Botas de inverno. Reconstruções históricas. Pelúcia, couro, napa, algodão, lantejoulas. Solado de corda, borracha, plástico.

Olhou os pés. Descalços, sem espelho ou mostruário. De quem eram aqueles pés depois de tantos sapatos?

23 dezembro 2008

verdes muros

o vento corre sobre a grama. o grilo se esconde entre os brotos da azaléia, e o rosto foge do sol entre um sorriso e o silêncio. o vento corre sobre a grama, mas a mulher flutua, do alto dos degraus onde se deita. a fumaça é um abrigo quente e úmido, e ela afasta o pensamento que a levou até ali porque não é hora de tristeza tampouco de permitir que alguém fora daquele verde se enfiasse na conversa. Aquela hora era somente dos presentes.

As carpas rabeiam na água, algumas ariscas, outras mansas. O conhecimento cobra o preço no que é pequeno, quando nos vemos fazendo algo só porque sabemos que é possível. Mas ele ri enquanto faz carinho nas costas de uma carpa que parou disposta a receber um afago.

Ela se entrega ao prazer de não ser responsável por nada. Nem pelo sorvete, nem pela chegada, menos ainda pela partida. Queria tomar sorvete. Devia ir embora antes que ficasse muito tarde. E se entregou em confiança ao momento e ao imenso prazer que sentia em ser levada por marés, guiada por mãos gentis, como se a suavidade de uma voz fosse a bússola. Como se todos os homens do mundo fossem Athos.

O muro atrás do parque foi pintado de verde. Ela olhava aquilo com curiosidade, como se pintar de verde tornasse menos muro o muro. Ela se sentiu mal pensando que ele continuava sendo um muro. Continuava ocupando a visão, delimitando um final. Mas então se mexeu para acender o cigarro e olho o muro por cima do silêncio dele deitado no chão. E olhando através do silêncio, ela foi obrigada a concordar que o muro era menos muro por ser tão verde.

pedaço de pêssego

Lá fora, a chuva é um som distante e um esmalte cor de café que insiste em ficar colado na lembrança daquela tarde.
A própria noite parecia ter aquela cor. Como se não fosse noite ainda e já tivesse deixado de ser dia, um anoitecer cor de café. Pensou na lata de pó para fazer capuccino dentro do armário, mas só pensou. Estava muito longe.

Mas acabou o açucar. A frase surgiu na mente e ela divagou no som que as palavras tinham. A-ca-bou---o---a-çu-car. ca-pu-cci-no. Pensou no duplo c da palavra capuccino. Era um som tão agradável que ela não sabia se matava a sede ou se dava vontade de beijar alguém.

Preferiu pegar água gelada. Não havia ninguém na casa. Se beijasse seu velho gato, o pelo daria cócegas no nariz.

Riu, sem se preocupar em rir alto, porque não havia ninguém para olhar. Não havia motivo para se preocupar com opiniões. Ali, era selvagem e rainha e seria também mendiga se quisesse, esmolando carícias, era seu território. Os azulejos branco e pretos a olhavam de volta com seus pequenos reflexos. E ela se sentiu feita de luz. E a chuva caiu mais forte, virou um som que ocupava sua mente e batia nos vidros. Ela olhava as gotinhas que se acumulavam no beiral, levando junto grãos de poeira e folhas miúdas. Encheu o copo de água gelada, e ficou parada olhando a chuva. A sombra da chuva batendo no vidro brincava nos seus braços.
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Lento, um pensamento se infiltrava na sua mente. Uma idéia boba qualquer sobre ir embora, abandonar tudo, país, emprego, profissão, ir para outro lugar. Procurar coisas que não sabia o que eram, mas ainda assim faziam falta. Mandaria postais da Turquia aos amigos e alugaria uma caixa postal quando chegasse em Praga.