16 Agosto 2009

Me pediram para escrever sobre o significado de ser guerreiro

Meu joelho encontra o chão, com a suavidade do movimento perfeitamente medido. Segurando reverente minha lâmina, eu a ofereço a meu deus, a meu imperador, e à minha terra.
Meus olhos se erguem reverentes e vejo o corpo nú segurando escudo e lança, suas únicas vestes são as grevas, o capacete e as manoplas. O Sujo de Sangue não esconde nada de si dos inimigos.
"Morra por sua pátria" diz a máxima vinda do oráculo de Delfos. Meu coração treme.
Me ergo. Embainho a lâmina e ergo as mãos na direção da imagem. Agora sim, eu posso orar - prestei respeitos como soldado presta honra a general, mas meu orgulho me ensinou a rezar em pé - como Ares aceitaria me ouvir se eu me humilhasse diante de qualquer um, mesmo Ele?
Meu povo é pequeno e nossos inimigos são muitos. Assim sempre foi, assim sempre será. Seremos relembrados pela filosofia, a arte, a língua, a poesia, a fé.
Mas eu sei, e cada guerreiro de minha pátria sabe, que só nossa luta contra nossos muitos inimigos permitirá que se lembrem do que fazemos em tempos de paz.
Cada homem livre ergue sua espada e se ergue para morrer.
Meus passos são comedidos enquanto me afasto do recinto sagrado. As pessoas me observam enquanto caminho pelas ruas - mulheres, velhos, crianças, metecos. Um velho segura meu ombro - ele tem lágrimas nos olhos por não terem permitido que ele lutasse. Eu o conforto e digo que será lembrado por mim. Erguerei minha espada em nome deste velho, destas mulheres e crianças, cheias da mesma fúria que eu carrego. Cada um dentro destas muralhas tem o coração de um guerreiro, e como guerreiros estas mulheres afivelam as couraças de seus homens e organizam para que o comércio que financia a guerra não pare de fluir. Como guerreiros estas mulheres entregam maridos e filhos e irmãos para morrerem.
"Morra por sua pátria"
O velho dá as costas e segue. Eu me reúno aos outros homens. Em seus olhos eu vejo que quando me enxergam, enxergam além de mim. Levo os dedos a boca reverente, enquanto olho o templo de Ares se distanciando. Que eu possa ser seu instrumento, pai da guerra.
Quando chegar a hora, a disciplina e a fúria serão uma coisa só. Nossos passos marcam o ritmo da dança que Ares nos ensinou. Nós dançaremos com a morte ainda hoje.

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Minha boca encontra a borda do kilyx. O vinho escorre enquanto a vibração dos diaulos enche o ar. Eu largo o cálice e corro, segurando meu tirso com firmeza, mas não posso evitar uma gargalhada. Ao longe, eu vejo meu Lorde. É por Ele que luto. Minha serpente sibila no meu ouvido, e enquanto corro sinto o roçar da pele de leopardo que é a única coisa a cobrir minha nudez. Em torno de mim, correm homens e mulheres, tomados pela loucura dionisíaca.
Nosso nome faz os inimigos engasgarem de medo. Atravessamos a Europa e a Ásia e amamos e matamos com a mesma intensidade.
É por amor que lutamos - amor a Lyaios. É o amor dEle que nos faz pisar em brasas sem sentir e nos permite amansar serpentes e feras. É o amor dEle que nos toma quando estraçalhamos os inimigos com as mãos nuas, ou os espetamos com nossos tirsos. Lyaios - seu nome já diz, ele é a liberdade, o que quebra as correntes, o libertador, e é por essa liberdade que lutamos. É para que a alegria que meu senhor derrama entre os homens possa se espalhar e para que cada mulher e homem da terra possa conhecer a liberdade. Nós derrubamos reis e acolhemos homens do povo. Nós ensinamos a plantar e colher e trazemos o amor dos vegetais. Mas nos enfureça, nos pode, arranque-nos do direito amoroso da terra, e nós seremos como uma onda furiosa que derruba os rochedos não importa com qual esforço.
Eu danço enquanto mato. Eu rio e jogo a cabeça para trás, e os guizos do meu tirso estão cobertos de sangue. Eu sinto o frênesi que envolve minha mente e sou possuída por Dionísio. Um frêmito, e o exército cai sobre os inimigos como se fôssemos uma só mente, assim como somos um só amor.
Meu lorde é neto do guerreiro Ares. E nossos inimigos não esquecerão nunca mais disto.
Eu vivo pelo amor e morro pela liberdade. E não me importo - porque aqueles que caem hoje, viverão novamente.

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Eu volto ao templo. Estou cansado e ferido. Nós vencemos. O Sujo de Sangue desejou que eu voltasse para casa vivo. Me banho e visto roupas limpas para entrar no recinto sagrado.
Atrás de mim, vem uma carroça. Trago o melhor do espólio e derrubo aos pés da imagem de meu senhor. Derrotei muitos inimigos, e voltei, diante dos olhos dEle. Sinto como se Ele tocasse em meus ombros, e sei que Ele aprecia minha bravura.
Sai disposto a morrer por meu país. Hoje, vivo para reconstrui-lo.

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Mergulho os pés na torrente fria do rio. Alianças de paz são forjadas pelas belas palavras de meu Senhor. Ele tem os olhos brilhantes e a beleza dos imortais, mas ama e compreende os homens. E as mulheres. E as feras. Ele espalha a compreensão e eu espero, com os pés na água fria do rio. Os soldados que sobreviveram no outro exército, nos olham com medo. Eu sinto compaixão por eles. Amarro melhor a pele de leopardo que cobre meu corpo. Me ergo, graciosa como uma ninfa, e pego um cântaro de vinho. Eles dão alguns passos para trás quando me aproximo. Eu ergo uma pequena taça e a encho. Entrego em suas mãos ainda temerosas. A um momento, eramos inimigos, mas isso não importa mais. Lutamos, porque era o que deviamos fazer. Mas este é um homem do povo - e eu vejo em seus olhos o anseio pela liberdade que meu exército significa. Começo a dar de beber aos inimigos. Não sou a única. Nossos sátiros começam a tocar suas flautas. Celebremos, porque estamos vivos. Vejo meu senhor sorrir, prestes a dançar conosco.

17 Junho 2009

culpa dos sapateiros das palavras

Primeiro foram sapatinhos de verniz. Amava o brilho deles, a lembrança de bonecas e laços de fita. Achou sempre que era um injustiça que não se fabricassem sapatos de verniz para adultos. Quando viu pela primeira vez um par de sapatos de adulto com aquela aparência de sapatinhos de boneca, comprou com avidez. Ela e a amiga, sentadas nos cacos de cerâmica vermelha do piso da faculdade, comparando os sapatos de boneca que elas mesmas vestiam, como se tivessem, súbito, cinco anos de novo.

Olhando para as fitas que prendiam os sapatos podia pensar que sua vida era medida por eles. O tempo dos sapatos de verniz, o tempo dos tênis de lona. O tempo dos coturnos e dos saltos Luis XV. O tempo que se dobrava em sapatilhas, sandálias rasteiras de couro vindas do nordeste. Sua vida poderia ser contada por seus pés, como se estes vivessem a parte do resto do corpo, ignorando todo o resto.

Tempo inclusive de chegar em casa descalça, pisando de leve nas meias atoalhadas para não fazer barulho.

Não são os pés o foco, mas o que os recobre. Como revestir esses pés e como mostrar para quem olha quem se é? Um sapato diz mais do que todo o resto da roupa.

Tempo de sapatinhos tricotados. Pantufas coloridas. Centenas de All Stars se acumulando - maldição de sapato que dura pouco e se gosta tanto. Botas de inverno. Reconstruções históricas. Pelúcia, couro, napa, algodão, lantejoulas. Solado de corda, borracha, plástico.

Olhou os pés. Descalços, sem espelho ou mostruário. De quem eram aqueles pés depois de tantos sapatos?

23 Dezembro 2008

solstício

Enquanto acendia o fogo, reparou que alguma coisa estava estranha na pedra que escolheu como base para a fogueira. Parecia que muitos outros fogos já haviam queimado ali - e olhando agora, não parecia coisa de campistas. Circulos e espirais corriam por toda a pedra, agora iluminada pelas chamas azuladas. No carro quebrado, seu cachorro deu um uivo longo que a deixou preocupada. Quando abriu a porta, ele correu em disparada para dentro da floresta. Ela suspirou enquanto a sombra branca dele desaparecia entre as árvores, mas o medo se se perder também falou mais alto. Começou a limpar o chão em volta do fogo - não queria provoca rum incêndio. E só então reparou no círculo de pedras brancas. E nas pedras chatas que agora pareciam assustadoras, enquanto vaga lumes se amontoavam pousando nelas.

O ar estava coalhado de vaga lumes.

Ela deu um passo para trás, e quase pisou nas chamas. De repente, um barulho de guizos pareceu tomar o ar no escuro da floresta. E flautas. E um grito - ou era uma gargalhada?

Desorientada, ela girou na direção do carro. Mas então ela O viu.

É necessário um O maiúsculo para falar dele. Porque é assim que acontece nas fábulas quando encontramos um rei - ou o filho do rei. Não se parecia com um príncipe encantado. Mas sua pele tinha um tom dourado e seu cabelo caia sobre seus ombros de um modo sensual e bonito. E a roupa dele que não era muita, diga-se de passagem - era de um tom que lembrava vinho claro e rubis.

Ela percebeu nessa hora que se mover não parecia tão fácil como deveria, como se o estranho que andava em sua direção a tivesse hipnotizado. Ela percebeu com o canto dos olhos que havia movimento entre as árvores.

Dança.

Sátiros dançavam entre as árvores - vinha deles o barulho dos guizos e das flautas. E as próprias árvores pareciam libertar mulheres feéricas que dançavam também. E os vaga lumes, ela percebia agora, mesmo sem poder ver, estavam dançando também, e maiores.

Quando ele a pegou pela mão, ela fez uma reverência antiga e desconhecida que a surpreendeu, e começou a dançar. E de repente, o pequeno espaço em torno do fogo era um grande salão de danças. E havia um banquete, e o vinho e o mel corriam como água.

Ela dançou com o estranho a noite toda. E quando o dia rompia, ele a beijou e partiu. Ela não teve dúvida alguma sobre correr atrás dele.

Mas já era tarde, ele foi embora.

Ela sentou ao lado do fogo que se apagava dentro do círculo de fadas. Seu cachorro, mancando, arranhava a porta do carro. Ela estranhou o capô aberto, e chegando lá, fios de prata e teias de aranha cobertas de runas faziam seu motor funcionar libertando um perfume que lembrava as acácias.

Ela pensou se deveria partir ou ficar.

Suspirou.

Chutou alguma coisa sem querer. Uma flauta. Um rubi. Uma taça. Uma pedra, Uma serpente. Um cesto. Ela não poderia nos dizer que forma tinha a chave, mas ela sorriu como uma mulher não sabe sorrir. Mas as fadas... bom, as fadas, as vezes, acham o caminho de casa.

verdes muros

o vento corre sobre a grama. o grilo se esconde entre os brotos da azaléia, e o rosto foge do sol entre um sorriso e o silêncio. o vento corre sobre a grama, mas a mulher flutua, do alto dos degraus onde se deita. a fumaça é um abrigo quente e úmido, e ela afasta o pensamento que a levou até ali porque não é hora de tristeza tampouco de permitir que alguém fora daquele verde se enfiasse na conversa. Aquela hora era somente dos presentes.

As carpas rabeiam na água, algumas ariscas, outras mansas. O conhecimento cobra o preço no que é pequeno, quando nos vemos fazendo algo só porque sabemos que é possível. Mas ele ri enquanto faz carinho nas costas de uma carpa que parou disposta a receber um afago.

Ela se entrega ao prazer de não ser responsável por nada. Nem pelo sorvete, nem pela chegada, menos ainda pela partida. Queria tomar sorvete. Devia ir embora antes que ficasse muito tarde. E se entregou em confiança ao momento e ao imenso prazer que sentia em ser levada por marés, guiada por mãos gentis, como se a suavidade de uma voz fosse a bússola. Como se todos os homens do mundo fossem Athos.

O muro atrás do parque foi pintado de verde. Ela olhava aquilo com curiosidade, como se pintar de verde tornasse menos muro o muro. Ela se sentiu mal pensando que ele continuava sendo um muro. Continuava ocupando a visão, delimitando um final. Mas então se mexeu para acender o cigarro e olho o muro por cima do silêncio dele deitado no chão. E olhando através do silêncio, ela foi obrigada a concordar que o muro era menos muro por ser tão verde.

pedaço de pêssego

Lá fora, a chuva é um som distante e um esmalte cor de café que insiste em ficar colado na lembrança daquela tarde.
A própria noite parecia ter aquela cor. Como se não fosse noite ainda e já tivesse deixado de ser dia, um anoitecer cor de café. Pensou na lata de pó para fazer capuccino dentro do armário, mas só pensou. Estava muito longe.

Mas acabou o açucar. A frase surgiu na mente e ela divagou no som que as palavras tinham. A-ca-bou---o---a-çu-car. ca-pu-cci-no. Pensou no duplo c da palavra capuccino. Era um som tão agradável que ela não sabia se matava a sede ou se dava vontade de beijar alguém.

Preferiu pegar água gelada. Não havia ninguém na casa. Se beijasse seu velho gato, o pelo daria cócegas no nariz.

Riu, sem se preocupar em rir alto, porque não havia ninguém para olhar. Não havia motivo para se preocupar com opiniões. Ali, era selvagem e rainha e seria também mendiga se quisesse, esmolando carícias, era seu território. Os azulejos branco e pretos a olhavam de volta com seus pequenos reflexos. E ela se sentiu feita de luz. E a chuva caiu mais forte, virou um som que ocupava sua mente e batia nos vidros. Ela olhava as gotinhas que se acumulavam no beiral, levando junto grãos de poeira e folhas miúdas. Encheu o copo de água gelada, e ficou parada olhando a chuva. A sombra da chuva batendo no vidro brincava nos seus braços.
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Lento, um pensamento se infiltrava na sua mente. Uma idéia boba qualquer sobre ir embora, abandonar tudo, país, emprego, profissão, ir para outro lugar. Procurar coisas que não sabia o que eram, mas ainda assim faziam falta. Mandaria postais da Turquia aos amigos e alugaria uma caixa postal quando chegasse em Praga.